Nem bem nem mal alguns dias decorreram, graças a estratagemas que conseguiram engodar a desconfiança do estômago; certa manhã, porém, as vinhas d´alho que disfarçavam o odor de gordura e o cheiro de sangue das carnes não foram mais aceitas e des Esseintes perguntou-se, ansioso, se a sua fraqueza, já grande, não iria aumentar, obrigando-o a ficar acamado. Um clarão iluminou-lhe de súbito a aflição; lembrou-se de que um dos seus amigos, outrora muito doente, lograra, com a ajuda de um sustentador, travar a anemia, defender-se do definhamento, conversar o pouco de forças que lhe restavam.
Enviou seu criado a Paris, em busca desse precioso instrumento e, seguindo o prospecto de que o fabricante o fazia acompanhar, ensinou ele próprio à cozinheira o modo de cortar o rosbife em pedaços pequenos, colocá-lo a seco na marmita de estanho, com algumas fatias de alho-porro e cenoura, depois atarraxar a tampa e pôr o conjunto a cozer, em banho-maria, durante quatro horas.
Ao fim desse tempo, espremiam-se os filamentos e bebia-se uma colherada do suco lodos e salgado que ficava no fundo da marmita. Sentia-se então um como que tenro miolo, uma caricia veludosa, descer pela garganta abaixo.
Essa essência alimentar detinha os espasmos e as náuseas do vazio, incitava inclusive o estômago, que não se recusava mais a aceitar algumas colheradas de sopa.
Graças ao sustentador, a nevrose estacionou e des Esseintes disse comigo: - É sempre um ganho; quiçá a temperatura mude, o céu derrame um pouco de cinza sobre esse sol execrável que me deixa prostrado e eu possa assim esperar, sem maiores estorvos, a chegada das primeiras névoas e dos primeiros frios.
Naquele entorpecimento, naquele tédio ocioso em que mergulhara, sua biblioteca, cuja arrumação ficara em meio, o enervava; sem se erguer da poltrona, tinha constantemente diante dos olhos seus livros profanos, colocados de través nas prateleiras, atropelando-se uns aos outros, escorando-se mutuamente ou jazendo, feito cartas de baralho, de lado ou deitados; tal desordem o chocava tanto mais quanto contrastava com o perfeito equilíbrio das obras religiosas, cuidadosamente alinhadas ao longo das paredes.
Tentou remediar a confusão, mas ao cabo de dez minutos de trabalho ficou malhado de suor; o esforço o esgotava; foi-se estender, alquebrado, num divã e tocou a campainha chamando o criado.
De acordo com suas indicações, o velho pôs mãos à obra, trazendo-lhe um a um os livros, que ele examinava e para os quais designava o lugar certo.
A tarefa foi de curta duração, pois a biblioteca de des Esseintes continha um número singularmente restrito de obras laicas, contemporâneas.
À força de fazê-las passar pelo seu cérebro, como se fazem passar fitas de metal por uma fieira de aço, de onde saem tênues, leves, quase reduzidas a fios imperceptíveis, ele acabou só possuindo livros que resistissem a semelhante tratamento e tivessem têmpera suficiente para suportar o laminador de uma releitura; de tanto querer refinar dessa maneira, restringia e quase esterilizara todo prazer, acentuando ainda mais o conflito que existia entre suas idéias e as do mundo onde o acaso o fizera nascer. Chegara agora ao ponto de não poder mais descobrir um escrito que lhe contentasse os secretos desejos; sua admiração se despegava inclusive dos volumes que certamente haviam contribuído para aguçar-lhe o espírito, torná-lo de tal modo suspicaz e sutil.
Em arte, suas idéias tinham no entanto partido de um ponto de vista simples; para ele, não existiam escolas; só importava o temperamento do escritor; interessava-lhe apenas o trabalho de cérebro dele, qualquer que fosse o assunto que abordasse. Infelizmente, esta verdade em matéria de apreciação, digna de La Palice, era quase inaplicável, pelo simples motivo de que, com desejar livrar-se dos preconceitos, abster-se de qualquer paixão, cada qual vai procurar de preferência as obras que correspondem mais intimamente ao seu próprio temperamento e acaba deixando para trás todas as outras.
Esse trabalho de seleção se havia lentamente operado nele; adorara outrora o grande Balzac, mas ao mesmo tempo em que o seu organismo se havia desequilibrado, e os seus nervos ganharam ascendentes, suas inclinações se tinham modificado, mudando-se as suas admirações.
Em pouco, e conquanto se desse conta da injustiça cometida em relação ao prodigioso autor de A Comédia Humana, chegara ao ponto de não mais abrir-lhe os livros, cuja arte vigorosa o melindrava; agitavam-no agora outras aspirações, que se tornavam, de certo modo, inexplicáveis.
Sondando-se bem, todavia, compreendia desde logo que, para atraí-lo, uma obra devia assumir aquele caráter de estranheza reclamado por Edgar Poe; ele se aprofundava ainda mais, e com gosto, nessa direção, e convocava bizantinices cerebrinas e complicadas deliqüescências de linguagem; aspirava a uma indecisão perturbadora na qual pudesse sonhar, fazendo-a, a seu talante, mais vaga ou mais firma, de conformidade com o estado momentâneo de sua alma. Apreciava, em suma, uma obra de arte pelo que ela era em si mesma e pelo que ela lhe podia dispensar; queria ir com ela, graças a ela, como se sustido por um adjuvante, como se transportado por um veículo, a uma esfera onde as sensações sublimadas lhe comunicassem uma comoção inesperada cujas causas ele procuraria por longo tempo, e até mesmo em vão, analisar.
Em suma, desde a sua partida de Paris, distanciava-se cada vez mais da realidade e, sobretudo do mundo contemporâneo pelo qual experimentava um horror crescente; tal aversão teria forçosamente de agir sobre os seus gostos literários e artísticos, e ele se afastava o mais possível dos quadros e dos livros cujos temas se rebaixassem a tratar da vida moderna.
EN LA OTRA ORILLA DEL SILENCIO
1 hora atrás

0 comentários:
Postar um comentário